Narciso Doval foi um dos melhores atacantes do Flamengo; o argentino que virou carioca
Existem histórias de atacantes do Flamengo que desafiam as fronteiras. Narciso Doval nasceu em Buenos Aires, mas morreu carioca. Quando pisou no Rio em 1969, vindo do San Lorenzo campeão argentino de 1968, ninguém apostaria que aquele centroavante se tornaria o maior artilheiro estrangeiro da história do Mengão. Pois foi exatamente isso que aconteceu.
Em seis anos vestindo o manto sagrado, Doval disputou 263 partidas e marcou 95 gols. Números impressionantes, mas que contam apenas metade da história. O cara era fenomenal: inteligência, coragem, força, velocidade e poder de decisão. Para escapar dos zagueiros, seu dos truque predileto deixava os adversários desnorteados – arrancava em disparada, parava de súbito, explodia novamente. O marcador ficava plantado feito poste, sem saber se respirava ou se corria.
Mas mesmo quando a defesa se fechava, Doval tinha outros recursos. Cabeceador primoroso, oportunista nato que se antecipava aos beques com muita competência. Se tudo falhasse, cavava a falta com a malícia de quem conhecia cada segredo do jogo. Era habilidoso como bom argentino, daqueles que parecem ter nascido com a bola grudada nos pés.
O argentino era valente e nunca se intimidava. Mas o que realmente diferenciava Doval da maioria dos atacantes do Flamengo era algo raro nos gramados brasileiros daquela época: profissionalismo. Enquanto muitos colegas se perdiam na boemia carioca – e não faltavam tentações entre Lapa e Copacabana –, ele mantinha uma rotina monástica. Alimentação rigorosa, zero festas noturnas, disciplina de atleta europeu.
O resultado saltava aos olhos. Em seis temporadas na Gávea, sofreu apenas uma distensão muscular – e ainda foi por pancada, não por desgaste. Isso numa era em que o preparo físico brasileiro era precário, quando muitos jogadores se “preparavam” à base de cerveja e churrasco. Doval era considerado um dos atletas mais bem condicionados do Fla, um clube que nunca teve carência de feras.
Com essa dedicação toda, ajudou o Clube de Regatas do Flamengo a conquistar conquistas importantes: os Cariocas de 1972 e 1974, três Taças Guanabara (1970, 1972 e 1973) e o Torneio do Povo de 1972. Não eram os títulos glamorosos que viriam no fim dos anos 70, mas cada um deles foi celebrado com festa nas arquibancadas do Maracanã.

Duas passagens pelo Fla
Seu amor pelo Mengão foi em grande parte alimentado pela impressionante torcida do clube carioca e ficou ainda mais evidenciado porque Doval teve duas passagens pelo Flamengo. Na primeira, de 1969 a 1971, ele mostrou sua marca de artilheiro, mas acabou encontrando um treinador que o que queria longe do gol, atuando taticamente. Foi embora cheio de razão, emprestado ao Huracán, mas voltaria depois em 1972, quando atuaria ao lado de ídolos como Zico, Fio Maravilha e Geraldo.
Um dos melhores atacantes do Flamengo
O apelido dizia tudo sobre sua identificação com a cidade: “o argentino mais carioca”. Não era exagero de torcedor apaixonado. De fato, Doval conquistou o coração do Rio de Janeiro inteiro. Além do Mengão, Doval também atuou por: Seleção Argentina, Fluminense, San Lorenzo, Huracán, Cleveland Stars e o New York Apollo, mas sua alma jamais saiu da Gávea.
Em 2020, especialistas colocaram Doval na 26ª posição entre os maiores ídolos do Fla. Um dos quatro estrangeiros na lista – honra raríssima num clube de gigantes como Zico, Júnior e Adílio. Para um gringo, estar nesse panteão significa que você não foi apenas bom: você foi adotado.
Coração rubro-negro
A tragédia chegou prematura e cruel. Em 1991, aos 47 anos, Doval estava em Buenos Aires quando o Flamengo venceu uma partida. Na comemoração, o coração falhou. Ataque cardíaco fulminante – o mesmo mal que havia levado seu pai anos antes. Toda aquela disciplina mantida vida inteira, mesmo após pendurar as chuteiras, não bastou para evitar o destino.
A ironia dói: Doval partiu festejando o que mais amava, uma vitória do clube pelo qual havia dado tudo. Argentino no documento, carioca na essência, profissional até a medula e craque de verdade. Deixou 95 gols que nenhum outro estrangeiro conseguiu superar no Flamengo, e uma saudade que o tempo não apaga.
Narciso Doval veio de Buenos Aires, conquistou o Rio e partiu celebrando o Mengão. Se existe justiça poética no esporte, é essa: morrer fazendo o que se ama, ao lado de quem se ama. Vida longa à sua memória.










